sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sobre o inacabamento do ser humano


Há algum tempo venho me debruçando em leituras de ordem psicanalítica. E confesso: como o ser humano possui explicações interessantes sobre seu próprio comportamento. Não é novidade hoje falar em libido, castração, complexo de Édipo; de uma forma ou de outra esses conhecimentos já estão na boca de muita gente. É aquele movimento que nós podemos classificar como vulgarização do conhecimento: já se tornou algo tão (re)discutido, por tanta gente, que já caiu na boca do povo. Vale lembrar que não é "todo povo", mas sim na boca ou no discurso de pessoas que possuem algum tipo de letramento literário e que por alguma inquietação caiu lendo o Freud, o Lacan, etc... Mas o que queremos tratar aqui vai além dos postulados da ciência freudiana. 
O ser humano, como um ser pensante, sempre quis se definir. Colocar-se com uma definição hora pronta, ou as vezes clivada, confusa, etc. isso é praxe da qualidade humana. O que quero chegar com essa afirmação que é considerada chavão dos manuais de filosofia? E justamente demonstrar mais uma vez, de novo, bis (como diria um professor meu de literatura) que o ser humano é um sujeito incompleto. Paulo Freire traz em Pedagogia da Autonomia uma afirmação que desde a primeira vez que eu li fiquei extasiado: "Na verdade, o inacabamento do ser ou sua inconclusa é próprio da sua experiência vital. Onde há vida, há inacabamento."¹ O mestre Freire conseguiu reunir de forma sintética toda a reflexão acerca da experiência de definição do ser humano. Não existe completude, infalibilidade, causa última; por que o sujeito vive na tensão entre sentir-se completo na atualidade do evento e o futuro incompleto que se sugere, ou seja, temos um sentimento de completude efêmero. E isso implicará muitas atitudes. 
Quando o homem não se sente completo, ele vai em busca de uma forma de completar-se. A evolução do indivíduo se dá nessa tensão, como a libido da ciência freudiana. Li em um dos livros da obra completa de Freud que a libido é a pulsão para a vida, o que tem um fundo de verdade. E nessa nossa discussão eu diria que a libido, para a pulsão da vida, é a tensão antes comentada. A prova cabal disso se faz analisar na história humana. Antes se dizia que o homem era superior a mulher, hoje o discurso pregado é o da igualidade (não vamos discutir isso a fundo aqui). Vejamos: em séculos passados essa definição era irrisória, porém o homem moderno hodiernamente a acolhe bem. A verdade antes posta era o superior poder do homem, o que por muito tempo foi considerado verdade absoluta; hoje com o grande sentimento de relativismo permeado na ciência e no cotidiano faz-se necessário que a verdade, antes absoluta, torne-se obsoleta. E uma nova verdade surge para atender as demandas do pensamento humano. Outro exemplo é a efemeridade dos conceitos científicos, psicanálise em um futuro próximo será obsoleta também (se já não é por algumas pessoas). 
E Assim nos propomos a sermos humanos. Pois não sou psicanalista, eu estou psicanalista. Isso nunca vai acabar, e pode até acabar no dia da finitude da vida. Mas, isso também parece não dar conta do conceito de inacabamento, pois muitos vão dizer que a vida continua após a morte. E se a vida continua, continua a tensão, continua o inacabamento, porque afinal somos humanos e estamos fadados a isso.

¹FREIRE, Paulo. Ensinar exige consciência do inacabamento. In: _____. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996; pág.: 50.

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